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Vale Europeu em Santa Catarina: roteiro de três dias saindo de Blumenau

6 min de leitura

Três dias de estrada curta entre Blumenau, Pomerode, Timbó e a colônia italiana, escritos por quem mora aqui e sabe onde a alta temporada estraga o passeio.

Antes de sair: três coisas que decidem a viagem

Carro é praticamente obrigatório. Não há transporte público útil ligando as cidades do Vale Europeu. As distâncias são curtas — a maioria dos deslocamentos deste roteiro fica entre vinte minutos e uma hora —, mas dependem de carro ou de transfer contratado.

Segunda-feira fecha muita coisa. Museu, casa histórica e restaurante colonial da região costumam fechar às segundas, e vários fecham também no domingo à tarde. Confira o horário no site oficial de cada atrativo antes de montar o dia: horário muda por temporada e este guia não vai chutar número para você.

Outubro é outra cidade. A Oktoberfest de Blumenau acontece em outubro desde 1984 e muda tudo: hospedagem, trânsito, preço, disponibilidade. Se o seu interesse é a festa, venha em outubro sabendo disso. Se o seu interesse é o vale, venha em qualquer outro mês e você vai conhecer a região de verdade, com os moradores no lugar dos moradores.

Dia 1 — Blumenau, começando pelo que quase ninguém vê

Manhã: Vila Itoupava. Comece no bairro mais afastado e mais alemão de Blumenau, a cerca de trinta quilômetros do centro. É zona rural, com casas antigas, cemitério de família, igreja luterana e gente de idade que ainda conversa em alemão no dia a dia. Não é atração montada para turista, e é justamente por isso que vale a primeira manhã. Vá com o mapa baixado: sinal de celular oscila.

Almoço: café colonial ou refeição de casa. A região tem uma tradição de mesa posta com dezenas de itens, doce e salgado juntos. Duas advertências honestas: costuma servir a partir da tarde, não no horário de almoço, e é muito comida. Se você planeja café colonial, faça um almoço leve, ou faça o café no lugar do almoço.

Tarde: centro histórico. A Rua XV de Novembro concentra a arquitetura enxaimel do centro e as construções de fachada germânica. Vale entrar no Museu da Família Colonial, que conta a história da colonização com objeto e documento de família, e passar na Ponte de Ferro e no Mausoléu do Dr. Blumenau. O Museu da Cerveja fica no mesmo eixo, e a cidade tem um circuito de cervejarias independentes que faz mais sentido à noite.

Fim de tarde: se o dia estiver limpo, suba num dos morros com mirante para ver o vale se fechando entre as encostas. Você entende a geografia da região em cinco minutos de vista, e o resto do roteiro passa a fazer sentido.

Dia 2 — Pomerode e a Rota do Enxaimel

Pomerode fica a menos de meia hora de Blumenau e se apresenta como a cidade mais alemã do Brasil. É marketing, mas é marketing com lastro.

Manhã: Rota do Enxaimel, em Testo Alto. Este é o ponto alto do roteiro inteiro. São cerca de cinquenta construções em enxaimel — a técnica de estrutura de madeira aparente com encaixes, sem prego — distribuídas ao longo de uns dezesseis quilômetros de estrada rural. É a maior concentração desse tipo de construção fora da Europa, e boa parte das casas é tombada.

Reserve pelo menos duas horas e faça devagar. Algumas propriedades recebem visita, outras são casas particulares habitadas: pare no acostamento, fotografe da rua e não entre em pátio sem convite. A estrada é estreita e de mão dupla.

Meio-dia: Casa do Imigrante Carl Weege. Uma propriedade rural preservada com a casa, os utensílios e a rotina de uma família de colonos. É o complemento certo da Rota do Enxaimel: uma coisa é ver a fachada, outra é entender como se vivia dentro.

Tarde, escolha uma:

  • Museu Pomerano, sobre a origem pomerana da colonização local, que é uma história distinta da alemã genérica que se conta por aí.
  • Zoo Pomerode, se você viaja com criança. É o zoológico mais antigo de Santa Catarina e ocupa uma tarde inteira.
  • Fábricas com loja própria. A região tem indústria de chocolate, de porcelana e de cristal com visitação e venda direta.

Noite: volte para Blumenau ou durma em Pomerode. A cidade é pequena e silenciosa, e jantar cedo é a norma, não a exceção.

Dia 3 — Timbó e a virada para a colônia italiana

Manhã: Timbó. A quarenta minutos de Blumenau, é a cidade mais subestimada do vale. O Complexo Turístico do Imigrante reúne, no mesmo trecho de margem de rio, ponte pênsil, quedas d'água pequenas, museu do imigrante e centro de informação turística com artesanato. Dá para fazer a pé e sem pressa. A cidade tem ainda o Museu da Música e a casa do poeta Lindolf Bell, para quem gosta de acervo pequeno e bem cuidado.

Timbó é também o ponto de partida do Circuito Vale Europeu, o primeiro roteiro de cicloturismo planejado do Brasil, que atravessa nove municípios. Se você pedala, vale conversar com o centro de informação: dá para fazer um trecho de um dia sem se comprometer com o circuito inteiro.

Almoço: atravesse a fronteira invisível. A menos de meia hora de Timbó, Rodeio e Ascurra são de colonização italiana, no meio de um vale que você vinha percorrendo como alemão. A comida muda de repente: polenta, galinha, vinho colonial. É a melhor lição do Vale Europeu, e ela se aprende no almoço do terceiro dia. Restaurante de comida colonial italiana aqui costuma abrir só no fim de semana ou só com reserva — ligue antes.

Tarde: Rio dos Cedros ou volta pelas represas. Rio dos Cedros, ao norte de Timbó, tem barragens e estrada de serra com paisagem de mata atlântica fechada. É o oposto do roteiro de arquitetura, e um bom jeito de encerrar. Se o tempo virar, troque por Indaial e volte cedo.

Se você tem só um dia

Faça Pomerode. Rota do Enxaimel na parte da manhã, Casa do Imigrante Carl Weege no meio-dia, museu ou fábrica à tarde. É o dia com maior densidade do vale inteiro.

Se você tem cinco

Acrescente Gaspar, que tem parque aquático e as grutas de Botuverá a uma distância razoável, e Brusque, de vocação têxtil e de compras. Nova Trento, com o santuário de Santa Paulina, é o polo de turismo religioso da região e merece um dia próprio.

Duas advertências práticas

Chuva no vale é séria. A região tem histórico de enchente e a topografia é de encosta. Em período de chuva forte, confira a situação das rodovias antes de pegar a estrada, especialmente a BR-470, que tem obras recorrentes.

Não conte com cartão em tudo. Propriedade rural, casa de artesanato e pequeno produtor podem trabalhar só com dinheiro ou Pix. Leve algum troco.

O que fica de tudo isso

O Vale Europeu não é um parque temático alemão, e quem vem esperando isso volta um pouco decepcionado. É uma região de colonização real, com sobrenome alemão numa cidade e italiano na cidade vizinha, arquitetura de trabalho e não de cenário, e uma vida que segue acontecendo enquanto você passeia.

Três dias dão para entender isso. O resto é decidir em que mês você vem.

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